tempos

“tempo, tempo, tempo, tempo” dizia caetano
“horas, dias, semanas, meses, anos” digo eu
cada um com sua cor e dor
passa tão depressa
eu me apresso pra não ficar para trás
tenho um ritmo devagar, talvez lento demais
e enquanto todos correm no sentido horário
eu que fui programada no anti-horário
preciso aprender a ir contra a minha própria essência e sina pra não ir só
eu tenho medo de ficar só
eu corro pra ir junto
não sei com quem
com todo mundo e com ninguém
ao mesmo tempo
no tempo deles
nas minhas horas
seus segundos, meus minutos
diminuto sou
segundo você
e por ora me desfaço
pra ser mês
pra ser anos
pra ser talvez
pra ser, talvez

eu você nós

Eu que sou eu
que sempre fui eu
já não caibo mais em mim
nesses dias
tenho transbordado tanto
que já não estou afim
de voltar para mim

Eu que sou eu
e sempre fui
acho ruim
ser só assim
ma parece pouco
sou além
sou além
disso aqui

Estou por todos os cantos
Estou em todos os lugares
Estou no povo
E nos olhares

Eu que sou eu
quero ser você
quero ser nós
para sermos um

Não me leve a mal
me leve a bem
te levo, também
pra dentro de mim

da arte que eu quero

Eu quero poesia pintura teatro jardinagem palavras sensações emoções sentimentos explosões não cabe no peito me congelo me derreto morro ressurjo horizontes novos abrangentes transbordando quente não cabe no peito arrebenta vacila oscila foi tanto que se foi.

oito quatro

a inspiração mora ao lado,
entre clipes, remédios, chaves, dinheiro, bottons, cabos, garrafas e fones
na bagunça, no tédio, nos livros e no sono
nas cores, nas falas, no espelho e pelos pisos da casa
no silêncio, no secreto, no vazio e no escuro
mora em mim, mora ali, mora em ti, mora aqui

ressaca de lucidez

a ressaca de lucidez
me faz falar sobre coisas que acho que sei
vai ver é o que o peito acumulou
mais genuíno que todas as vezes que tentei
compor
sobre mim
sobre o que for

da janela eu vejo o tempo passar
muda tanto que volta ao princípio,
a ser o que era
ou vai ver,
é o que nunca deixou de ser
como um círculo

sobre mim, sobre o que for
seja como for
toda forma de ser
voltei ao ponto inicial
na forma mais banal
nua e crua
sem saber por onde ir
assim como era
ressaca de lucidez

pensar menos sobre isso tudo
juro pra mim,
pelo menos dessa vez
tentar ser mais assim
e menos de mim
mas jurar não é o suficiente
meu pai sempre me dizia:
quem jura, mente (!)
vai ver, estou destinada a isso

desatino em mim
palavras sem fim
viro minha poesia
e hipocrisia